A Grande Esfinge do Egito sonha por êste papel dentro…
Escrevo – e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides…
Escrevo – perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops…
De repente paro…
Escureceu tudo… Caio por um abismo feito de tempo…
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste
candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com
a pena…
Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel…
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sôbre o papel onde escrevo, entre êle e a pena que escreve
E entre os nossos olhares que se cruzam sobre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que penso…
Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim!…
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Fernando Pessoa. Cancioneiro. In: Obra poética.
Org., intr. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio de
Janeiro: Cia Aguilar Editora, 1965, p. 114-115.
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Artista: Lélia Parreira
Título do quadro: Chuva oblíqua III
Técnica: Acrílica sobre MDF.
Dimensões: 135 cm x 85 cm
2011